Cravo bicentenário em exposição na Escola de Artes do Icbeu recebe manutenção para temporada de concertos

Instrumento de cordas pinçadas, o cravo franco-flamenco em exposição na Escola de Artes do Icbeu (Art School) foi um dos pilares da música europeia entre os séculos XVI e XVIII. Sua sonoridade definida e luminosa o consolidaram como instrumento central do repertório solo e da música de câmara no período barroco, sendo amplamente utilizado por compositores como Johann Sebastian Bach e François Couperin.

O exemplar exposto na Art School segue o modelo de Pascal Taskin (1784), um dos mais prestigiados construtores franceses do século XVIII, reconhecido por aperfeiçoar a mecânica e a projeção sonora do instrumento.

Recentemente, o cravo passou por manutenção técnica especializada para garantir estabilidade estrutural e excelência acústica durante a nova temporada de concertos da Art School, como conta o professor de piano Átila de Paula.

“Esse instrumento, que já é muito antigo e que veio da Europa, passa por um processo contínuo de aclimatação ao longo dos anos e das mudanças de local. Quando chegou a Manaus, encontrou índices elevados de umidade, o que provocou descolamentos na estrutura”, explica o docente.

De acordo com Baldoino Leite, supervisor da Art School, ter o cravo bicentenário como como exposição permanente é uma afirmação do Icbeu Manaus com a memória, a difusão e a fruição da arte

“Um instrumento histórico que carrega consigo séculos de memória e tradição, é um gesto de profundo significado cultural”, afirma Leite. “Trata-se de ampliar o acesso aos nossos estudantes, às famílias, ao público que nos visita e permitir que esse patrimônio artístico esteja próximo, visível e vivo”.

Restauração 

Construído em madeira maciça, o cravo reage diretamente às variações ambientais e somado às mudanças bruscas de umidade e temperatura podem gerar microfissuras e comprometer a integridade da tábua harmônica, considerado o “coração acústico” do instrumento, afetando a projeção, a estabilidade da afinação e a qualidade da emissão sonora.

“O nosso cravo é muito especial porque ele mantém o tampo original do instrumento, então essas restaurações são muito importantes para o bom funcionamento dele”, afirma Átila de Paula.

A intervenção preventiva foi essencial para preservar suas características originais e assegurar desempenho adequado em apresentações públicas.

“São detalhes técnicos muito sutis, mas que fazem toda a diferença e garantem que o instrumento tenha uma vida mais longa e produtiva”, reforça o professor.

O luthier (artesão especializado) responsável pelo trabalho foi Corentin Charlot, especialista na construção e manutenção de cravos no Brasil. O processo incluiu colagem estrutural, reforço interno com técnicas tradicionais de marcenaria, como o encaixe em rabo de andorinha, além da revisão completa do mecanismo.

Luthier francês Corentin Charlot é especialista na construção e manutenção de cravos no Brasil (Foto: Bruno Sena)

“Na restauração, também realizei a sincronização do mecanismo e a regulagem das cordas para garantir uniformidade sonora e equilíbrio entre os registros”, destaca o luthier francês.

Nova temporada

A primeira edição da temporada de concertos intimistas da Art School será no dia 31 de março às 19h, em uma edição especial inteiramente dedicada ao Mês das Mulheres. O concerto presta homenagem a grandes intérpretes da música brasileira e internacional, celebrando trajetórias e contribuições para a arte.


Sob a direção artística da cantora lírica, soprano e professora de canto da Escola de Artes, Mirian Abad, o espetáculo “Ladies’ Night” reunirá diversos convidados de destaque da cena artística manauara, em uma noite que promete emoção e excelência musical.

Art School Concerts

Desde 2025, a Escola de Artes do Icbeu realiza o Art School Concerts, série mensal de concertos gratuitos que transforma o espaço acadêmico em palco para a música erudita. Com formato intimista, trazendo proximidade entre intérprete e público, o projeto cria uma experiência de escuta qualificada e formação de plateia.

A iniciativa fortalece a prática da música de câmara, amplia o repertório cultural dos estudantes e consolida um calendário artístico permanente em Manaus, conectando formação, performance e difusão cultural em um mesmo ambiente.

Ao longo de sete edições, o projeto já recebeu artistas como Bárbara Soares, Fernando Lima, Gretchen Labrada, Alberto Kanji, Ariel Sanches, Rebeca Rocha, Joana Mello e Aleksandra Kazak, reafirmando o compromisso da instituição com excelência artística e intercâmbio cultural.